Retorno da Nascar, alívio, e nova realidade

Dois meses depois, a arquibancada e a rua ficaram vazia, mas 40 motores rosnaram, foi música.

Publicado por: em 20 de maio de 2020 - 23:52

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Voltas rápidas

Nascar voltou

Sem público, Nascar está de volta.

DARLINGTON (EUA) – As arquibancadas estavam vazias. As ruas estavam despovoadas. Mas, após dois meses de silêncio, o som de 40 motores rodando nas curvas do Darlington Raceway foi o mais doce dos barulhos.

A NASCAR voltou à pista no domingo (17) em Darlington, na Carolina do Sul, após um período de inatividade de oito semanas induzido pela pandemia do novo coronavírus, e foi um retorno bem-vindo a algo que parecia uma espécie de normalidade… desde que você se concentrasse apenas na pista e em nada mais.

Como o resto do país, a NASCAR fechou em meados de março, apenas alguns dias antes de sua corrida em Atlanta. Porém, quando os estados próximos da central da NASCAR, em Charlotte, começaram a relaxar as restrições em relação a aglomerações e negócios, começaram a surgir planos sobre como trazer as corridas de volta.

“Recebi uma ligação de Steve Phelps no final de abril, querendo saber se estaríamos dispostos a sediar uma corrida em meados de maio”, disse Kerry Tharp, presidente da Darlington Raceway. “Respondi: ‘Não temos nada na nossa agenda”.

A NASCAR voltou à ativa no Darlington Raceway, sem a presença de fãs. (Chris Graythen / Getty Images)
A NASCAR voltou à ativa no Darlington Raceway, sem a presença de fãs. (Chris Graythen / Getty Images)

Assim, com a ajuda do governador da Carolina do Sul, Henry McMaster, que diminuiu gradualmente as restrições no Estado de Palmetto, a NASCAR começou a fazer planos para reintroduzir as corridas, começando em uma das pistas mais famosas do esporte.

“Foi uma grande honra ser convidado a sediar a primeira corrida de retorno”, disse Tharp. “Uma grande oportunidade, mas também uma grande responsabilidade.”

Os funcionários da pista trabalhavam sem parar para preparar Darlington para seu momento de destaque. Mas fora da pista, a vida continuou da mesma maneira que nas últimas oito semanas.

Os restaurantes dependem do fim de semana de corrida para fortalecer seu negócio, mas os clientes de domingo eram escassos, apesar do retorno da NASCAR. (Yahoo Esportes)
Os restaurantes dependem do fim de semana de corrida para fortalecer seu negócio, mas os clientes de domingo eram escassos, apesar do retorno da NASCAR. (Yahoo Esportes)

“Malditos repórteres – estão me dando nos nervos”, resmungou um homem no Raceway Grill, perto da Darlington’s Turn 2. Com um carro antigo no teto e lembranças dos dias da NASCAR cobrindo cada centímetro dos espaços das paredes, o Raceway Grill constitui um cenário tentador para as entrevistas do Person on the Street e para as notícias locais.

Por uma tarde, essa pequena cidade úmida e arenosa no meio da Carolina do Sul foi o centro do universo esportivo americano. Em uma nação e um setor famintos por notícias, isso significava enviar equipes de longe para cobrir um dos primeiros grandes eventos esportivos após o início da quarentena. Mas como a NASCAR permitiu apenas quatro pessoas da mídia dentro da pista, e restritos a uma única cabine de imprensa, isso deixou uma dúzia de outros veículos vagando pela Harry Byrd Highway procurando pessoas para entrevistar.

E isso, naturalmente, trouxe muitos deles para o fotogênico Raceway Grill. Os funcionários da mídia superavam o número de clientes no local, apesar de apenas um ter comprado uma Coca-Cola e um hambúrguer. (Estava uma delícia.)

O Raceway Grill é uma das dezenas de pequenas empresas fora dos muros da pista que sofrem com a pandemia e, como a maioria na pista, o retorno das corridas não significa retorno de receita. O dinheiro não voltará até que os fãs voltem.

Medidas paliativas são apenas tentativas de adiar o inevitável. A Carolina do Sul permitiu que os restaurantes começassem a receber pessoas dentro do estabelecimento de forma limitada na sexta-feira. No domingo de manhã, o Raceway Grill esperava encher seu espaço, cheio de souvenirs, até a capacidade permitida, ou seja, pela metade. Nas semanas normais de corrida, o restaurante ficava lotado com uma fila de horas de espera do lado de fora por cinco dias seguidos. Domingo? Você conseguia contar em uma mão os clientes nos 90 minutos antes da bandeira verde dar início à corrida.

Em um fim de semana normal de corrida, as rodovias e os estacionamentos em torno de Darlington estariam cheios de fãs, vestindo camisetas de Kyle Busch ou Chase Elliott, carregando isopores, cadeiras, e bebendo aos montes. Agora? Nada além do um lento fluxo de tráfego ocasional apenas passando por ali.

A situação não estava melhor em Piggly Wiggly. Normalmente, uma parada do último dia da corrida para comprar mais gelo e uma caixa extra de cerveja, o supermercado estava praticamente abandonado no domingo, os recortes de papelão de Dale Earnhardt Jr. e Martin Truex Jr. vigiando os corredores vazios.

Ao oeste da pista, os comerciantes de uma barraca improvisada que vendiam mercadorias de Trump fizeram uma vigília silenciosa à espera dos clientes. “Não vendi muito”, disse Dave Dixon, que foi de Sarasota, Flórida, para Darlington, com suas mercadorias. “As corridas da NASCAR geralmente são nossos momentos campeões de vendas.” Ele viaja com pilhas de chapéus Make America Great Again e camisas TRUMP 2020 para comícios de campanha e corridas da NASCAR; ele não divulgou quanta receita perdeu com a pandemia, mas disse que “foi uma grande queda”.

Vender mercadorias de Trump em uma corrida da NASCAR era lucrativo, no passado. Não foi assim no domingo em Darlington. (Yahoo Esportes)
Vender mercadorias de Trump em uma corrida da NASCAR era lucrativo, no passado. Não foi assim no domingo em Darlington. (Yahoo Esportes)

Do ponto de vista puramente esportivo, a NASCAR ganhou muito no domingo. Como a Daytona 500 de 1979, que ocorreu em um dia em que a maior parte da população da costa leste ficava dentro de casa, por causa da neve, a corrida de domingo teve a atenção quase total de um público sedento por esportes.

A corrida em si contou com o retorno de Ryan Newman à pista, após seu acidente em Daytona, um acidente de Jimmie Johnson, que estava com sedento por uma vitória, enquanto liderava e uma vitória de Kevin Harvick, a 50ª vitória na sua carreira.

A corrida de domingo também chamou a atenção de outros grandes esportes, procurando um caminho de volta ao campo. É verdade que a NASCAR é um tipo diferente do que, digamos, o basquete – os concorrentes têm várias toneladas de chapas metálicas entre eles – mas a logística simples de atrair pessoas para dentro e fora de uma instalação de eventos, permanece a mesma.

“Isso pode ser feito”, disse Tharp. “Você precisa se organizar. Você precisa se esforçar bastante e dedicar muito tempo. Você precisa se comunicar demais com sua equipe. Você tem que planejar tudo. Mas se você tem um plano sólido, pode funcionar”.

Para a NASCAR, esse plano incluía restrições rígidas sobre quantas pessoas poderiam estar dentro dos muros da pista. A parte interna estava cheia de centenas de carros, mas isso é apenas porque os pilotos e funcionários das equipes foram instruídos a dirigir individualmente para a corrida. A NASCAR permitiu apenas o mínimo de oficiais, observadores e meios de comunicação, e todos que entravam nas pistas estavam sujeitos a uma verificação de temperatura no local.

Mas não haviam fãs presentes, e isso será um problema substancial para os esportes daqui para frente. Tharp estimou que um fim de semana de corrida com 50.000 a 60.000 fãs presentes traz um impacto econômico de 65 milhões de dólares ao Condado de Darlington, e isso é um impacto enorme em um condado com uma população de 67.000 habitantes.

Sim, a própria NASCAR desfrutará de um impacto no reconhecimento e prestígio nesta etapa de sete corridas em 11 dias. Mas quanto disso vai diminuir até os Darlingtons, Martinsvilles e Bristols? Se o futebol americano universitário não terá fãs, como isso afetará Tuscaloosas e Stillwaters em todo o país? Os negócios que dependem de fãs – não de jogos, mas de fãs – ião enfrentar dificuldades. Restaurantes, hotéis, vendas de lembrancinhas… todos sentirão o aperto financeiro até que os fãs voltem às arquibancadas.

Ter os esportes de volta faz maravilhas para a alma. Mas, como mostra Darlington, até que possamos trazer os fãs de volta às arquibancadas, ainda há trabalho a ser feito pelas economias locais.

“Se este fosse um fim de semana de corrida, seria uma loucura”, disse Devin Patel, funcionário do OYO Hotel, a cinco minutos da pista, enquanto carros circulando ecoavam ao longe. “Agora nada.” Ele apontou para um estacionamento de 75 lugares com apenas um carro. “Ninguém está vindo.”

Da redação do Portal de Esportes com informações da Yahoo Esportes.